Anvisa reforça alerta contra uso indevido de canetas emagrecedoras

Por Lisiane Mossmann - Correio do Povo
20/09/2026 09h33

Pedidos femininos superam os masculinos em 75,2% no recorte de gênero da Serasa; médicos alertam para riscos do uso sem acompanhamento
As canetas emagrecedoras ganharam espaço na rotina de muitas mulheres, inclusive entre aquelas que buscam perder poucos quilos. No primeiro semestre de 2026, a Serasa Experian registrou 602,8 mil pedidos online de medicamentos associados ao GLP-1 vinculados ao público feminino, volume 75,2% maior do que entre os homens. Para especialistas, a popularização exige atenção ao uso sem indicação e sem acompanhamento médico.
Os dados fazem parte de um levantamento que analisou 1,36 milhão de pedidos entre janeiro e junho deste ano, alta de 149,3% em relação ao mesmo período de 2025. As solicitações movimentaram R$ 2,35 bilhões, sendo mais de R$ 1 bilhão em pedidos associados a mulheres. No recorte de gênero, elas representaram 44,2% do total. A categoria “Outros”, que reúne outros gêneros ou pedidos sem identificação nessa classificação, respondeu por 417,5 mil solicitações.

Os números, porém, não representam todo o mercado brasileiro. O levantamento da Serasa Experian considera os pedidos submetidos às tecnologias antifraude da empresa, e os valores correspondem às transações analisadas, não ao faturamento consolidado do setor.

Para o médico toxicologista Alvaro Pulchinelli, diretor Técnico da Toxicologia Pardini, do Grupo Fleury, o crescimento do interesse por esses medicamentos traz uma preocupação que vai além da própria substância. “O que preocupa mais hoje é o mau uso, principalmente quando existe uma finalidade estética, sem prescrição e sem acompanhamento adequados”, afirma.

Quando a busca por emagrecer dispensa o consultório
Pulchinelli lembra que o uso de qualquer medicamento sem acompanhamento pode colocar a saúde em risco. No caso das canetas, isso pode ocorrer pela escolha de um produto inadequado, dose incorreta, aumento inadequado da dose ou utilização por um período que não corresponde às necessidades daquela pessoa.

Outro problema, segundo o toxicologista, é a percepção de que o resultado rápido na balança transforma o medicamento em uma solução pontual. Ele ressalta que os tratamentos com esse tipo de medicamento podem ser de longo prazo e precisam ser discutidos dessa maneira desde o início. Interromper por conta própria depois de atingir determinado peso não significa necessariamente que o resultado será mantido.
Pulchinelli cita entre os pontos que exigem acompanhamento alterações digestivas, questões relacionadas à absorção e ingestão de nutrientes e perda de massa muscular durante o emagrecimento. Ele também chama atenção para possíveis alterações na saúde bucal.

Estudos recentes vêm investigando manifestações orais associadas principalmente à semaglutida, como boca seca, alterações do paladar e mau hálito. A literatura, porém, ainda é limitada e parte das evidências é indireta ou baseada em relatos clínicos, o que exige cautela ao estabelecer uma relação de causa e efeito.

Mulheres tem efeitos específicos
O crescimento da procura entre mulheres também chama atenção para particularidades que podem aparecer durante um processo de emagrecimento acelerado. O cirurgião bariátrico César De Fazzio, diretor do Instituto de Cirurgia Digestiva (ICD), em Brasília, acompanha mulheres em uso de análogos de GLP-1 e afirma receber com frequência pacientes que recorreram aos medicamentos por conta própria e chegam ao consultório quando consequências da falta de assistência já apareceram.

Entre os problemas observados pelo médico estão queda de cabelo, alterações no ciclo menstrual e perda de massa muscular. Na avaliação de De Fazzio, as mulheres precisam de atenção especial porque possuem, em média, menor reserva de músculo e massa óssea do que os homens. Quando o emagrecimento é rápido e ocorre sem acompanhamento nutricional e de atividade física, a redução de massa magra pode ganhar maior importância.
A questão se torna ainda mais relevante à medida que os anos avançam. Pulchinelli lembra que a perda progressiva de massa muscular ocorre em homens e mulheres e merece atenção especialmente depois dos 40 anos. Por isso, o toxicologista defende que o acompanhamento não esteja voltado exclusivamente à balança. “Tem que ser acompanhado por médico, com apoio nutricional e atividade física”, ressalta.

Ciclo menstrual e fertilidade também precisam entrar na conversa
De Fazzio chama atenção ainda para mudanças na fertilidade durante o emagrecimento. Mulheres que anteriormente apresentavam alterações no ciclo podem voltar a ovular e engravidar quando ocorre melhora metabólica e perda de peso.

As evidências disponíveis são particularmente relevantes para mulheres com obesidade e síndrome dos ovários policísticos (SOP). Estudo aponta possíveis melhorias na regularidade menstrual, na ovulação e nas taxas de gravidez com a redução do peso e o uso de agonistas de GLP-1 nesse grupo, embora ainda existam lacunas sobre seus efeitos reprodutivos em mulheres de forma geral.

Isso significa que uma gestação pode ocorrer em um momento em que a mulher não a estava planejando. Como os agonistas de GLP-1 não são recomendados durante a gravidez, planejamento reprodutivo e contracepção também precisam fazer parte da orientação de mulheres em idade fértil que utilizam esses medicamentos.
Perder poucos quilos não significa pouco risco
O uso das canetas exclusivamente com finalidade estética também está entre as preocupações de Pulchinelli. Segundo o médico, recorrer ao medicamento apenas para eliminar poucos quilos não elimina seus possíveis efeitos adversos. A pessoa pode perder peso além do pretendido e apresentar alterações musculares, digestivas e outros efeitos que precisam ser acompanhados.
A indicação, portanto, não deve partir apenas de quantos quilos alguém gostaria de eliminar. Antes de prescrever, o profissional precisa conhecer o histórico de saúde, doenças existentes, tratamentos em andamento e outros medicamentos utilizados pelo paciente.

Pulchinelli afirma que não existe uma lista única de exames que possa ser indicada indistintamente para todos. “A avaliação depende de cada paciente, das doenças presentes, dos tratamentos que já utiliza e de como tudo isso será manejado”, explica.

Sintoma inesperado não deve ser ignorado
Um dos erros mais frequentes entre pessoas que se automedicam, na avaliação do toxicologista, é negligenciar sinais do próprio organismo. Pulchinelli observa que um sintoma recorrente pode ser mascarado ou simplesmente ignorado enquanto a pessoa mantém o medicamento por conta própria. Isso pode retardar a investigação de uma doença que, identificada inicialmente, poderia ter abordagem mais simples.

O mesmo cuidado vale para uma reação inesperada depois do início de qualquer tratamento. O médico cita como exemplos o aparecimento de um sangramento após a utilização de um medicamento ou uma reação alérgica durante o uso de um antibiótico. A lógica vale também para as canetas: uma manifestação que não fazia parte do esperado para aquele tratamento precisa ser comunicada ao profissional responsável.

Em fevereiro de 2026, a Anvisa reforçou o alerta para casos de pancreatite aguda relacionados ao uso indevido de agonistas de GLP-1. A reação já está prevista nas bulas aprovadas no país, mas a Agência apontou aumento das notificações e recomenda atendimento imediato em caso de dor abdominal intensa e persistente, que pode irradiar para as costas e vir acompanhada de náuseas e vômitos.
Avaliação cuidadosa para alguns grupos
Crianças, gestantes e idosos estão entre as populações que, segundo Pulchinelli, exigem cuidado especial no uso de medicamentos. Nos idosos, um dos principais fatores é a polifarmácia. Uma mesma pessoa pode utilizar diversos medicamentos para doenças diferentes, o que aumenta a possibilidade de confusão de doses e interações entre os tratamentos.

Pessoas com alterações no fígado ou nos rins também precisam de atenção individualizada, já que esses órgãos participam do processamento e da eliminação de diferentes substâncias no organismo. No caso das gestantes, medicamentos agonistas de GLP-1 não devem ser utilizados sem orientação específica e planejamento com a equipe de saúde.

Comprar pela internet acrescenta outro risco
A facilidade de encontrar ofertas de canetas em redes sociais, sites e aplicativos abre outra frente de preocupação. Pulchinelli alerta principalmente para produtos falsificados, contrabandeados, manipulados irregularmente ou vendidos sem procedência conhecida.

Nessas situações, o consumidor pode não ter qualquer garantia de que o princípio ativo informado realmente esteja no produto, de que a concentração corresponda à indicada no rótulo ou de que fabricação, manipulação, armazenamento e transporte tenham seguido os padrões sanitários exigidos. “Pode ser que nem tenha o princípio ativo”, alerta.
 A recomendação do médico é adquirir medicamentos apenas por canais regulares, com prescrição e produtos provenientes de fabricantes legalizados e submetidos às normas sanitárias. A preocupação é concreta. Ao longo de 2026, a Anvisa determinou apreensões e proibições de diferentes canetas vendidas sem registro no país. Em setembro, a Agência proibiu importação, armazenamento, distribuição, comercialização, propaganda e uso da T36, que não possui registro sanitário. Também proibiu a comercialização de canetas de GLP-1 por um site específico.

A Anvisa também ampliou neste ano a fiscalização sobre importação e manipulação desses medicamentos diante de irregularidades identificadas no mercado. Desde 23 de junho de 2025, medicamentos agonistas de GLP-1 somente podem ser vendidos no Brasil com retenção da receita pela farmácia ou drogaria. A regra alcança produtos como Ozempic, Wegovy, Mounjaro, Saxenda e outros medicamentos da classe registrados no país.

O peso pode voltar depois da interrupção
Outra expectativa que Pulchinelli procura desfazer é a ideia de que basta utilizar a caneta até atingir determinado peso e depois abandoná-la. Segundo ele, quando o medicamento é interrompido, os mecanismos sobre os quais atuava deixam de produzir o mesmo efeito e existe a possibilidade de recuperação do peso.

Por isso, o médico destaca que tratamentos indicados para obesidade precisam ser entendidos dentro de uma perspectiva de longo prazo, e não como uma intervenção rápida para determinadas épocas ou objetivos estéticos. A duração do uso varia conforme o medicamento, a indicação e as condições de cada paciente. Assim como o início, uma eventual suspensão precisa ser discutida com o profissional que acompanha o tratamento.
O problema não é simplesmente a caneta
Pulchinelli lembra que os agonistas de GLP-1 têm aplicações reconhecidas no tratamento do diabetes e, dependendo do medicamento, também da obesidade e do sobrepeso em situações específicas. A própria Anvisa mantém diferentes produtos da classe registrados para indicações distintas.

O avanço dessas terapias, porém, veio acompanhado de um uso cada vez mais voltado ao emagrecimento estético e, em alguns casos, sem acompanhamento. Para o toxicologista, é justamente essa mudança que merece maior atenção, pois o uso indiscriminado coloca a saúde de quem utiliza o medicamento em risco.

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